O Mistério da Cruz e a Alquimia Profunda

Muitas foram as vezes, certamente, que todos nós nos interrogámos sobre o significado da Vida. Afinal, para que existe um universo manifestado se fora deste habita a perfeição e a totalidade? Qual a razão da nossa essência profunda se projectar em Mónadas e Almas para descer aos mundos duais se, nestes mundos, não existe nada que possa adicionar ou subtrair o que quer que seja a essa mesma essência? Afinal para que serve toda esta experiência?


Num texto chamado “Ascensão” que escrevi há uns vinte anos atrás, tentei abordar este assunto colocando o foco na transubstanciação da matéria. Dizia: «Quando encarnámos neste Universo foi-nos passado para as mãos o barro em bruto e foi-nos dito: “Trabalhai-o com o Fogo do vosso Espírito”. Em etapas sucessivas dessa Encarnação Maior, esse barro foi sendo moldado, ganhando forma e brilho. Um dia, dentro do processo linear-temporal, o barro será transformado em Luz e em Luz será devolvido ao Pai.»

Creio que existe uma chave oculta neste barro que se transforma em Luz para ser devolvido ao Pai. E essa chave nós encontramo-la na Cruz. A igreja retrata esse momento afirmando que o sofrimento de Jesus na cruz lavou os pecados do mundo. Eu diria que está quase certo, mas encerra em si um equívoco. É que o sofrimento não tem poder alquímico, por ser meramente psicológico, e por isso a palavra sofrimento deveria ser substituída por dor.

Olhemos então com mais detalhe para este mistério.

Na parte final da encarnação de Jesus há dois momentos muito particulares de grande sofrimento para ele, os únicos em todo aquele processo. O primeiro foi quando Deus lhe apresentou o seu destino na Cruz e Jesus rejeitou esse destino dizendo: «Pai, tira de diante de mim este cálice». Ali ele sofreu por uns breves momentos por não aceitar a experiência que lhe estava a ser proposta. Mas logo depois anulou esse mesmo sofrimento, afirmando: «Mas seja feita a tua vontade e não a minha». O segundo momento de sofrimento foi quando, já na cruz, ele diz: «Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?» Aqui, uma vez mais, ele deixou-se levar pelas dúvidas e o sofrimento fez-se presente, mas logo depois, tal como anteriormente, anulou esse sofrimento ao afirmar: «Pai, em tuas mãos entrego o meu Espírito». É esta aceitação integral da experiência que tem o poder de anular o sofrimento, e é na medida em que esse sofrimento é anulado que o processo alquímico pode ocorrer.

Tudo o que aconteceu fora destes dois momentos muito particulares, que estão ali para espelhar a própria condição humana de Jesus, que foi um com todos, foi vivido por este na mais extrema das dores, mas em aceitação plena e, por isso mesmo, sem uma única gota de sofrimento. E é a aceitação plena desta dor extrema que encerra em si o mistério da Alquimia Profunda que transforma o mundo no resgate do carma através da transubstanciação da matéria. A ressurreição de Jesus é, por isso mesmo, a expressão máxima desse mesmo resgate através da iluminação plena do Ego que é ofertado ao Pai através do seu corpo de Glória: o Corpo de Luz.

Podemos observar esse mesmo mistério na vida de Padre Pio, por exemplo, que durante cinquenta anos viveu a dor extrema dos seus estigmas em aceitação plena e com isso ajudou a aliviar muitos dos fardos do mundo, em particular aqueles decorrentes de uma Segunda Guerra Mundial despoletada por forças ocultas poderosas que tudo tentaram fazer para demovê-lo da sua tarefa.

Que possamos perceber que a dor é uma parte inerente à própria encarnação. Não temos como evitá-la dentro das suas múltiplas gradações e dimensões, sendo esta o resultado natural do atrito produzido pelo Fogo Fricativo que rege os mundos duais. Dor essa que não está apenas confinada às feridas do corpo físico, às angústias e apegos do corpo emocional, às questões existenciais do corpo mental, mas a todas as experiências vividas num mundo que está em evolução. No entanto, apesar de todas essas manifestações de dor, somos nós que decidimos se essa dor se transforma em sofrimento ou em alegria, em desespero ou em confiança, em solidão ou em união, nas lágrimas de quem se julga abandonado, ou na força desse Olhar de Fogo que se oculta por detrás dos contornos da máscara civilizacional. Somos nós que decidimos se aquela experiência que vivemos se perde no emaranhado da psicologia humana, e suas múltiplas construções artificiais, gerando o sofrimento como um resíduo ou se, pelo contrário, aceitamos, de forma plena, essa mesma experiência e, com isso, permitimos que esta seja ofertada pelo crescimento e amadurecimento do próprio Ego. Sim, porque é este Ego, que nos acompanha desde a primeira encarnação, que está em evolução, é este que precisa ser transubstanciado, é por este que aqui estamos ao serviço, ajudando-o na sua elevação até que o mesmo seja ofertado ao Pai em Luz e Glória. Se negamos as experiências que a vida nos apresenta como forma de lapidar esse mesmo Ego, bloqueamos todo o processo alquímico através da toxina que chamamos sofrimento.

Jesus na cruz revela-nos a Alquimia Profunda a acontecer na sua máxima voltagem, algo só possível de ser vivido pela afirmação profundamente sentida e totalmente vertical de um: «Seja feita a tua vontade e não a minha». Ou seja, algo só possível pela anulação do sofrimento através da entrega e da aceitação plena da experiência. Sem essa aceitação o que fica é esse mesmo sofrimento, e este contamina-nos, paralisa-nos, é mortífero no sentido de ter o poder de anular toda uma encarnação e o seu propósito.

Ao longo dos séculos, através de algumas religiões, habituámo-nos a olhar para o sofrimento como uma experiência nobre, como algo que encerrava em si mesmo uma certa elevação que dignificava o Homem. Pois, estávamos errados. O sofrimento não tem poder alquímico nem enobrece ou verticaliza ninguém. Pelo contrário, é o responsável pela miséria do mundo e pela penúria de vidas que se arrastam sem significado e sem propósito. O que realmente dignifica o Homem e o Verticaliza diante de Deus, é viver todas as experiências em aceitação e entrega total. E isto foi aquilo que as forças involutivas sempre combateram, como o fizeram de forma persistente ao longo de toda a vida de Padre Pio, porque é desta Alquimia Profunda que nasce a sua anulação.

Quando tentamos negar as experiências que a vida nos trás, seja pela dor provocada no viver quotidiano, ou pela ilusão de caminhos espirituais distorcidos, como todos aqueles que buscam a anulação do Ego através da subjugação total a um “mestre” encarnado que promete a libertação, acabamos sempre por abrir brechas para a acção dessas mesmas forças que tudo farão para nos manter fora do nosso propósito mais profundo. O despertar pleno do Ser é totalmente inútil se não levarmos connosco esse Barro transubstanciado em Luz. É isto que nos ensinam os verdadeiros Mestres, devolvendo-nos a responsabilidade pelo nosso próprio processo, sem nenhum tipo de dependência para com Eles, de forma a que possamos um dia alcançar o mesmo grau de mestria.

Termino este texto transformando a experiência que Jesus viveu na Cruz numa equação que encerra em si mesmo esse mistério da Vida. Que saibamos adaptar essa mesma equação à nossa vida pessoal, salvaguardando a devidas proporções, retirando o extremo da dor, o pleno da aceitação e o profundo da alquimia, pois estes processos estão apenas reservados a grandes Almas, e com isso nos possamos entregar às experiências que a vida nos traz sem rejeitá-las, aliviando, ou até mesmo anulando, o sofrimento que resulta sempre da não aceitação dessas mesmas experiências. Se o fizermos, passos importantes estaremos a dar nesse processo alquímico de lapidar o nosso Ego na subtilização crescente da sua própria substância até que este se possa fundir nas vestes do Corpo de Luz que ele próprio foi tecendo ao longo das encarnações com o melhor que colocou em cada experiência vivida e, através desse corpo, renascer das cinzas dessa Dor Ancestral, transfigurando-se em Hóstia Consagrada que será, finalmente, devolvida Àquele que Tudo Criou.

Paz Profunda,
Pedro Elias

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