Correspondem, e de uma forma que ainda me impressiona mais do que a de Attar. Porque Teresa não era uma poetisa a criar uma alegoria: era uma freira que escrevia sob obediência, sem qualquer intenção de traçar mapas, relatando aquilo que lhe ia acontecendo por dentro. Escreveu o Castelo Interior em 1577, quase sem tempo, entre obrigações de fundação de conventos, e sem nunca ter lido Attar, que já ia então em quatro séculos de distância em língua persa. Duas pessoas que nada partilhavam. Sete moradas de um lado, sete vales do outro. E a mesma escada em ambos.
Repare-se, antes de mais, na imagem que ela escolheu, porque a imagem já é meio caminho. Attar viu a jornada como uma travessia horizontal, vales que se atravessam, pássaros que voam para longe. Teresa vê-a como uma descida ao interior de um castelo de cristal, morada após morada, sempre mais para dentro, até à câmara central onde o Rei habita. E note-se bem o que isto significa: para ela não há para onde ir. O castelo já está construído, o Rei já lá está desde sempre, e todo o percurso consiste apenas em atravessar as salas que nos separam daquilo que já somos. É exactamente a mesma coisa que digo quando falo do Regente, que é Deus em nós, no topo da estrutura vertical do ser. Não se vai a lado nenhum. Recolhe-se.
Vejamos então as moradas, e desde já aviso que a leitura é minha, não dela.
As três primeiras moradas cobrem inteiramente aquilo a que chamo o aspirante. Teresa descreve ali gente devota, que reza, que faz obras boas, que se esforça — e que continua, no essencial, a mesma pessoa. É devastadora quando fala disto. Diz que muitas almas ficam nestas moradas a vida inteira, ocupadas em coisas santas, sem nunca terem entrado verdadeiramente para dentro. E aponta o motivo com uma clareza que arrepia: continuam demasiado apegadas à honra, à opinião dos outros, aos seus próprios critérios de virtude. É a mesma malha, apenas vestida de hábito religioso. Ora, esta é precisamente a fase da busca, aquela voracidade que esconde um vazio imenso, mudando apenas de vocabulário.
A Quarta Morada é a Primeira Iniciação. E aqui a correspondência é de tal ordem que quase não precisa de comentário. Teresa marca este ponto como a fronteira decisiva de todo o livro, aquela em que a coisa deixa de depender do esforço de quem caminha. Até ali, diz ela, a água vinha do trabalho, tirada do poço com esforço próprio. A partir daqui, a água nasce da fonte. É o que chama a oração de quietude, e descreve-a como um dilatar-se do interior, um sossego que chega sem ser buscado, e que não dura. Não dura, sublinha ela, vem e vai. Pois é exactamente isto o que descrevo na Primeira Iniciação: a Alma abre a sua válvula, uma maior voltagem chega à personalidade, e o ser começa a sentir estados de paz e de silêncio verdadeiro, ainda de forma intermitente, ainda em pequenas doses. Aquilo que vem de cima e não se fabrica cá em baixo.
A Quinta Morada é a Segunda Iniciação, e é aqui que Teresa nos dá a imagem mais extraordinária de toda a literatura mística cristã. O bicho-da-seda. A lagarta que tece o seu próprio casulo, entra nele, e morre lá dentro para que dele saia a borboleta. Ela é explícita ao ponto de dizer que a alma tem de morrer, que aquilo que era tem de acabar. É o deserto. É a Noite Escura, que o seu companheiro de jornada João da Cruz haveria de nomear e desenvolver com aquele rigor que só ele teve. É a travessia onde tudo é retirado das mãos e onde só a Fé permanece. E é curioso, e revelador, que Teresa coloque esta morte a meio do castelo, e não no fim: porque ela sabia, por experiência, que ainda faltava caminho depois.
A Sexta Morada é a Terceira e a Quarta Iniciação, e junto-as aqui porque é isso mesmo que o texto de Teresa mostra a quem o lê com atenção. Não é por acaso que esta é, de longe, a morada mais extensa de todo o livro: é que ela abarca dois processos, não um. Na sua primeira metade, tudo se torna estável. Os favores multiplicam-se, há visões, arroubos, ferida de amor, aquele estado permanente que já não vai nem vem. É a transfiguração, é a Terceira Iniciação, com o ser tornado prolongamento directo da sua regência e sem retrocesso possível a partir daqui. Mas depois vem a outra face, aquela que muitos comentadores despacham depressa e que é decisiva: é também nesta morada que os sofrimentos mais crescem, que as perseguições exteriores se agravam, que a alma é atravessada por uma dor que já não tem nada de pessoal. Isto é a Quarta Iniciação. É a crucificação, é o confronto com a dor ancestral da humanidade que nos atravessa por dentro. E é por isso que Teresa alonga tanto esta morada e a enche de páginas sobre padecimentos: porque ela sabia, e sabia-o na carne, que a estabilidade interior não traz sossego exterior nenhum. Quem serve, paga.
E a Sétima Morada é o Matrimónio Espiritual. É assim que ela lhe chama, com todas as letras, e é assim que a tradição iniciática lhe chama também: o Matrimónio Superior, o encontro da noiva com o noivo, a Alma que se une à Mónada sobre as vestes do Corpo de Luz. Teresa descreve-o distinguindo-o cuidadosamente do que chama desposório, que era o estado da morada anterior, e diz que agora já não há separação possível, que a alma e Deus são como duas velas cuja luz se fundiu numa só, ou como a água da chuva que caiu no rio e que ninguém mais consegue separar do rio. É a Quinta Iniciação, sem margem para dúvida. A dissolução dos núcleos e a confluência de toda a consciência num só ponto.
Reconheço, no entanto, uma diferença, e não a escondo, porque me parece a parte mais interessante de tudo isto. Attar terminou com a aniquilação e com o reconhecimento, e ficou-se por aí. Teresa termina noutro sítio. No fim da Sétima Morada, quando já tudo está consumado, ela vira-se para as suas irmãs e diz-lhes que o propósito de todo aquele percurso não era o gozo daquele estado, mas as obras que dele nascem. Que o matrimónio serve para que nasçam sempre obras. E vai mais longe, ao afirmar que Marta e Maria têm de andar juntas, que a contemplativa e a activa são a mesma pessoa. Ora, isto é exactamente aquilo que a doutrina afirma quando diz que a partir da Terceira Iniciação o ser entra verdadeiramente ao serviço do plano evolutivo. Não se sobe para se ficar em cima. Sobe-se para se poder servir em baixo.
Uma freira de clausura, sem grego, sem latim, sem estudos, escrevendo à pressa por obediência ao seu confessor, deixou-nos o mapa iniciático mais preciso que a cristandade produziu. E é por estas coisas que eu digo que a escada é uma só. Attar chamou-lhe vales e olhou para fora, para o horizonte a ser atravessado. Teresa chamou-lhe moradas e olhou para dentro, para o centro do castelo. Nós chamamos-lhe iniciações e olhamos para cima, para a estrutura vertical do ser. Três direcções diferentes, três vocabulários, três mundos. O mesmo caminho.