Existe, e é muito mais funda do que uma simples semelhança de números. Mas convém irmos por partes, porque este é precisamente o terreno onde se cometem os maiores atropelos, montando-se tabelas de equivalências que parecem impecáveis no papel e que na verdade nada explicam.
Os sete vales vêm de Attar de Nishapur, no século XII, naquele poema onde os pássaros da terra decidem partir à procura do seu rei. A Busca. O Amor. O Conhecimento. O Desprendimento. A Unidade. O Assombro. E, por fim, a Pobreza e a Aniquilação. Sete etapas que o buscador tem de atravessar, e das quais nenhuma se pode saltar. Ora, quando se dispõem estes vales ao lado das iniciações, as ressonâncias saltam à vista de tal maneira que se torna tentador fazer a correspondência um a um. E é aqui que eu peço prudência.
É que estamos perante duas linguagens diferentes a descrever a mesma escada. Attar descreve estados interiores, tal como foram vividos e sentidos por dentro, na linguagem da via devocional, que é a via do coração. As iniciações, na cartografia que apresento, são outra coisa: são processos estruturais que resultam do contacto do nosso ser com a sua regência hierárquica, e que produzem efeitos objectivos na estrutura vertical do ser, aumentando a voltagem de consciência que desce até à personalidade. Um descreve como a viagem se sente. O outro descreve o que na viagem efectivamente acontece. Não são mapas rivais. São o mesmo território visto pelo peregrino e visto pelo cartógrafo.
Dito isto, vejamos as ressonâncias, porque elas são reais e algumas são notáveis.
O Vale da Busca é exactamente o estado do aspirante, esse ser que já deixou a malha hipnótica em que a humanidade em geral se encontra, mas que ainda não se reencontrou consigo mesmo. Anda numa busca quase obsessiva por conhecimento, por técnicas, por métodos de todo o tipo, numa voracidade que esconde mal o vazio de quem ainda não sabe onde pousar os pés. É o vale que se atravessa antes de a porta da Primeira Iniciação se abrir, e não depois.
Os vales do Amor e do Conhecimento correspondem, no meu entender, à Primeira Iniciação. E aqui sou eu que os junto, note-se, porque em Attar eles são dois vales distintos. Mas quem viveu esta iniciação reconhece que ali as duas coisas acontecem ao mesmo tempo. É no nascimento que o ser sente pela primeira vez a energia da Alma a expressar-se através de si, e com ela chegam os estados de paz, de harmonia e de verdadeiro silêncio, ainda não permanentes, mas suficientes para o marcarem para sempre. Aquele conhecimento voraz da fase anterior transfigura-se então em outra coisa. Já não é acumulação: é discernimento. As leituras, que antes eram massivas e desordenadas, tornam-se agora seleccionadas e sintonizadas com aquilo que o ser está efectivamente a viver. E, sobretudo, o amor deixa de ser um sentimento da personalidade e começa a ser aquilo que desce da Alma. Amar e conhecer passam a ser o mesmo gesto, e por isso os trato como um só patamar.
O Vale do Desprendimento, onde tudo aquilo que o buscador acumulou lhe é retirado das mãos, é o deserto. É a Noite Escura da Alma, é a Segunda Iniciação, onde o ser deixa de sentir a sua Alma, perde o contacto com a Hierarquia, e se vê abandonado sem nenhuma referência a que se agarrar. Attar sabia bem do que falava. Quem escreveu aquele vale atravessou-o.
O Vale da Unidade é a Terceira Iniciação. Depois do deserto, o ser reencontra tudo aquilo que julgara perdido, mas agora de forma estável e permanente. É a transfiguração. É o momento em que a energia da Alma volta a fluir e absorve por completo a personalidade, em que o ser é aceite pelo Mestre e se torna um prolongamento directo da sua Hierarquia. Já não há duas coisas: há uma só. Harmonia física, paz emocional, silêncio mental. E daqui não se retrocede mais.
O Vale do Assombro, esse estado de perplexidade em que o ser já não compreende coisa alguma e onde as certezas anteriores se desmancham, corresponde à Quarta Iniciação, quando já não é o carma pessoal que está em causa mas a dor ancestral da humanidade inteira a passar pelos nossos corpos. É a crucificação. E compreende-se bem porque é que Attar lhe chamou assombro: nada do que se aprendeu antes serve para explicar aquilo. O ser que já tinha alcançado a unidade vê-se agora a carregar o fardo do mundo, e não há doutrina que console.
O Vale da Pobreza e da Aniquilação, aquilo a que os sufis chamam fana, o desaparecimento do eu separado, é a Quinta Iniciação. Ali dissolvem-se a Alma e a Mónada, e a consciência que nelas se encontrava ancorada conflui toda ela para um único núcleo, o Corpo de Luz, que fomos nós próprios a tecer ao longo das encarnações. Pobreza, porque nada resta daquilo que se era. Aniquilação, porque o eu separado desaparece efectivamente. E, no entanto, é ali que o ser ganha tudo, passando a operar com total liberdade desde a terceira até à sexta dimensão. Perde-se a gota. Ganha-se o oceano.
Mas o mais belo de tudo guardei-o para o fim. No poema, os pássaros que sobrevivem à travessia chegam finalmente diante do seu rei, o Simurgh, e descobrem então que o Simurgh são eles próprios — porque em persa «si murgh» quer dizer, precisamente, trinta pássaros, que era o número dos que restavam. Ora, isto é a Sétima Iniciação. É ali que todos os prolongamentos de um mesmo Regente, aqueles que fizeram o seu percurso pela matéria, se unificam nesse núcleo divino de onde um dia partiram. O rei que procuravam eram eles. Attar viu isto no século XII e escreveu-o num poema sobre pássaros, porque não havia outra maneira de o dizer.
Convém, no entanto, notar uma coisa. Attar traça o arco com precisão até à aniquilação, e depois entrega-nos directamente o reconhecimento final, sem descrever o que fica entre um e outro. E isso não é uma falha do poema: é a própria condição de quem escreve. Os mapas místicos foram todos traçados por seres encarnados a narrar aquilo que viveram na carne, e a partir da Quinta Iniciação o ser já não está encarnado, já não tem quem escreva por ele. É por isso que, em todas as tradições, os mapas se vão tornando cada vez mais sintéticos à medida que sobem, até se calarem por completo.
E é esta convergência, e não a coincidência do número sete, que a mim mais me comove. Homens e mulheres separados por continentes, por séculos e por línguas que não partilhavam, subiram a mesma montanha e trouxeram de lá descrições que se sobrepõem. Uns chamaram-lhes vales. Outros chamaram-lhes iniciações. A escada é a mesma, porque só há uma.