Pedro Elias Instrução Espiritual
Um ciclo novo

Livros-Raiz

Não esperam que se lhes vá ao encontro.
São eles que vão ao encontro de quem os abrir.

Ainda não estão à venda Estes livros estão a ser escritos. O primeiro chega no início do próximo ano.

São sete, e chamo-lhes Livros-Raiz. Começam numa coisa que qualquer pessoa reconhece — uma noite má, uma discussão que volta de três em três meses, um tratamento prolongado num hospital, uma relação que já acabou e onde se continua a morar — e só no fim dizem de onde é que aquilo vem.

Não são resumos de nada, não são versões fáceis e não são introduções. Escrevi-os para quem ainda não tem a pergunta formada: para quem sente que alguma coisa não assenta, mas não saberia dizer o quê. A esses, estes livros vão ao encontro.

A diferença para os Livros-Princípio é de porta. Um Livro-Princípio começa nos ensinamentos e desce até à vida; e espera, como um espelho pendurado, por quem já traz a pergunta consigo. Estes fazem o caminho ao contrário — começam na vida, e é lá que vão buscar quem os abrir.

Os sete livros

Cada um se fecha sobre a sua matéria. Não há ordem entre eles, nenhum precisa dos outros, e não é preciso ter lido uma linha do que veio antes para abrir qualquer um.

A Hora da Simplicidade

A publicar · Março de 2027

Há uma hora do dia a que os livros não chegam.

Uma pessoa pode ter lido tudo o que há para ler sobre a matéria e chegar a uma noite em que nada disso lhe serve. Às três da manhã ninguém tem perguntas. Tem uma coisa em cima que não se resolve, e não tem sequer um nome para lhe dar. Quem abre uma estante àquela hora não vai buscar informação. Vai buscar companhia.

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Este livro fala do cansaço de quem já leu tudo e continua exactamente igual. Da vontade de largar e do medo de largar. Da pessoa difícil que temos em casa e com quem nenhuma doutrina nos ensinou a lidar.

Fala também de uma bicicleta encostada à porta de um templo. De um homem que varreu o chão durante semanas sem receber uma única instrução. De uma mulher que reza a mesma oração há sessenta anos e nunca perguntou se a estava a rezar bem.

E trata, do princípio ao fim, de uma só coisa: daquilo que há a pousar.

Todos os capítulos descrevem alguma coisa a ser pousada — uma bagagem, uma bicicleta, uma identidade, um retrato, uma fuga. Nenhum descreve uma aquisição. É esse o desenho do livro, e é o que ele tem de mais difícil para gente competente. Fomos todos ensinados que se avança por acrescento. É assim quando se aprende uma profissão, é assim quando se aprende um instrumento, é assim quando se levanta uma casa. Aqui não é.

E pousar não é largar. Larga-se o que já não se quer; pousa-se, com as duas mãos e a escolher o sítio, aquilo que tem valor e pode partir-se — e o que este livro pede que se pouse é o melhor que cada um tem.

Não é preciso ter lido nada para abrir este livro. Ele não pressupõe nada e não explica nada. Aponta, e depois cala-se.

O Propósito da Vida

A publicar · Junho de 2027

Há uma pergunta que quase ninguém põe aos vinte e cinco anos e que quase toda a gente acaba por pôr: o que é que eu vim aqui fazer.

Não é uma pergunta de juventude, ao contrário do que se supõe. Aos vinte e cinco a vida está a acontecer depressa demais para que sobre tempo de a interrogar. Ela chega mais tarde, tipicamente quando já está tudo montado e a funcionar — a casa, o emprego, os filhos, o lugar na fotografia de família — e chega em voz baixa, quase sempre de noite. A primeira coisa que faz é envergonhar quem a ouve, porque não há nada de que se possa queixar.

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Este livro responde-lhe, e responde de uma maneira que costuma desagradar à primeira leitura. Antes de haver uma missão a descobrir, há uma condição prévia, e chama-se estar presente. Não é um instrumento ao serviço do propósito. É aquilo sem o qual não chega a haver propósito nenhum.

Um homem de setenta e três anos senta-se a gravar a vida para os netos e produz onze minutos. Uma mulher trabalhou sete anos numa caixa de supermercado antes de descobrir o que fazer com o minuto que cada cliente passa à frente dela. Um homem passou vinte e oito anos a repor a mesma conversa que não teve com um filho. Nada disto é excepcional, e é isso que o torna difícil de ler.

O que está aqui em causa não é a descoberta de uma missão. É a suspeita, muito mais desconfortável, de que uma vida inteira pode ser vivida na sala ao lado da própria vida. E de que ninguém dá por isso, precisamente porque tudo corre bem.

O Caminho para Deus

A publicar · Setembro de 2027

Há uma coisa que quase nunca se diz a quem começa: que o caminho tem forma.

Não é uma sucessão de acasos, não é uma questão de temperamento, não depende do país onde se nasceu nem da religião que se herdou. Há uma sequência. As coisas acontecem por uma certa ordem, e o que vem a seguir depende do que veio antes. Há passagens que ninguém salta — nem por mérito, nem por inteligência, nem por ter tido um bom professor. E quem está lá dentro não sabe disto. É essa, e nenhuma outra, a razão deste livro.

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Três testemunhos independentes atravessam estas páginas: A Conferência dos Pássaros, de Attar de Nishapur; o Castelo Interior, de Teresa de Ávila; e a Noite Escura, de João da Cruz.

Nenhum dos três leu qualquer um dos outros. Attar escreveu em persa, quatro séculos antes, num mundo que não tinha contacto nenhum com Castela. Teresa e João escreveram na mesma língua, dentro da mesma religião e do mesmo Carmelo, e conheciam-se — mas o Castelo Interior já estava escrito quando a Noite Escura foi começada. E descreveram a mesma coisa pela mesma ordem: a partida que não se decide, a água que vem de longe e a água que nasce, a travessia seca, o que morre pelo caminho, a dor que não é nossa.

Este é um livro sobre o que acontece depois do entusiasmo. Sobre os períodos em que não há nada — que são a maior parte do percurso, e aquilo de que menos se fala. E sobre quem desiste convencido de estar finalmente a ser honesto, e sobre a razão por que essa convicção aparece sempre no mesmo sítio.

E foi escrito para quem esteja lá dentro agora. Para quem precise de saber que aquilo em que está tem nome, tem lugar na ordem das coisas, e não é sinal de se ter enganado no caminho.

Os Tons da Existência

A publicar · Novembro de 2027

Há pessoas que decidem antes de perceber e pessoas que percebem e não decidem. Há quem entre numa sala e a organize sem dar por isso, e quem entre na mesma sala e veja apenas quem ali está em sofrimento. Nenhuma delas está a fazer melhor do que as outras. Estão a fazer coisas diferentes — e cada uma acha, no fundo, que as outras estão a complicar.

Este livro trata das sete correntes que atravessam uma pessoa e lhe dão o timbre de tudo o que faz. Não é o que ela diz: é o modo. Nota-se aos três segundos e nota-se em tudo.

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Cada capítulo pega numa delas — a vontade, o amor, a inteligência, a harmonia, a verdade, a devoção, a ordem — e trata-a por dentro. Como vive uma pessoa com aquele tom. O que lhe custa e aos outros não custa. Que sombra é a sua, e de que medo é feita essa sombra. E, sobretudo, de quem é que ela precisa e não suporta. Porque cada tom tem o seu contrário — e o contrário aparece quase sempre na pessoa com quem se colide há vinte anos.

Não é um sistema de tipos de pessoas e não serve para arrumar ninguém em gaveta alguma. O que não há maneira de saber é o acorde inteiro — os sete tons com um número ao lado de cada um não se apuram em teste nenhum, e não há quem os diga a outra pessoa. Mas há uma coisa que se sabe sem esforço nenhum e sem risco de engano: qual é o que falta.

Ninguém é uma nota. Toda a gente é um acorde — e há acordes que assentam à primeira e acordes que passam uma vida inteira à procura de uma resolução.

A Verdadeira Cura

A publicar · Janeiro de 2028

A uma pessoa que adoece dá-se hoje, com as melhores intenções do mundo, uma coisa que ela não pediu: uma explicação. Alguém que gosta dela diz-lhe que aquele órgão corresponde àquela mágoa. Alguém lhe pergunta o que é que ela ainda não perdoou. E ela sai daquela conversa com a doença que já tinha e mais uma suspeita em cima — a de que, algures, fez qualquer coisa de errado.

Este livro foi escrito para lhe tirar isso.

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Começa por uma distinção simples e difícil de aceitar: limpar a mancha e tapar o furo não são a mesma operação, não se fazem com as mesmas mãos, e não há limpeza nenhuma que repare a mangueira. Aliviar é urgente, é real, e há dias em que é a única coisa que interessa. Transformar é outra coisa, é raro, e não se encomenda.

E sustenta que a doença tem três origens possíveis — um desvio do caminho, um acordo feito ao serviço de outras pessoas, ou a porta pela qual estava previsto sair desta vida —, para chegar à tese central do livro, que quase ninguém diz: não há maneira de saber qual delas se está a ver. Nem de fora, nem quase sempre de dentro. E de uma ignorância honesta não se pode extrair um veredicto sobre ninguém.

Está aqui um cão que o autor levou ao colo durante duas noites, e o que aconteceu quando deixou de querer que aquilo resultasse. Está aqui, dito sem rodeios, onde entra a medicina e em que dia se vai ao médico. Está aqui o que se diz a quem fez tudo e não sarou, e está aqui a criança que adoece. E está aqui o poder de quem cura — o capítulo mais desagradável do livro e o único obrigatório.

Todos os capítulos tiram alguma coisa. Nenhum acrescenta. No fim não sobra um método: sobra um espaço vazio, e é precisamente disso que se trata, porque uma porta é um buraco numa parede — não é uma coisa que se acrescente a uma casa, é uma coisa que se tira dela.

Quem está doente não fez nada de mal. Se este livro servir para alguma coisa, há-de ser esta: que alguém o feche com uma coisa a menos em cima.

A Ordem que nos Sustenta

A publicar · Abril de 2028

Numa cozinha há dois frascos de vidro, do mesmo tamanho, comprados no mesmo dia e postos lado a lado na prateleira. Um tem sal. O outro tem açúcar. Nenhum deles tem etiqueta, porque quem os encheu sabia perfeitamente qual era qual.

Os dois são brancos. Os dois têm o mesmo grão. E não são a mesma coisa — a diferença não é de grau, e quem os trocar não faz uma coisa ligeiramente pior: faz uma coisa que ninguém come.

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Este livro trata de dois frascos assim.

Há famílias que deixaram de se falar por causa de um casamento, de uma herança, de uma escolha de vida ou de um funeral a que alguém não foi. Há mesas de domingo onde a mesma discussão volta de três em três meses, com outra notícia e o mesmo resultado. E na esmagadora maioria desses casos não houve maldade nenhuma, nem estupidez, nem má-fé.

Houve gente decente a discutir de andares diferentes, sem saber que havia andares.

Uma pessoa diz que aquilo não se faz. Outra responde que é perfeitamente legal. Uma terceira diz que legal ou não legal é indiferente, porque há coisas que são erradas de qualquer maneira. As três julgam estar a discutir a mesma coisa. Não estão — e enquanto ninguém disser de onde está a falar, aquela conversa pode durar vinte anos e não se mover um centímetro.

Este livro descreve a ordem que está por baixo de toda a vida em comum, e mostra que ela tem cinco andares: o instinto, que é o que somos antes de tudo; a moral, que os seres humanos inventaram para caberem na mesma gruta; a lei, que existe porque há muitas morais e elas não se entendem; a ética, que não foi inventada por ninguém; e uma coisa que se sabe sem a ter aprendido.

Cada andar existe para conter o de baixo. Nenhum existe para o substituir. E quando um se põe no lugar de outro, o edifício não cai de repente — fica torto, e as pessoas que lá vivem passam a magoar-se umas às outras sem perceberem porquê.

Não é um livro de política. Não tem partido, não propõe um sistema e não diz a ninguém em quem votar. E não vai deixar ninguém mais tolerante: quem o ler continua a achar erradas exactamente as mesmas coisas que achava antes.

O que muda é outra coisa, e é mais útil: quem o ler passa a saber de que andar está a falar — e de que andar está a falar quem tem à frente.

O Quinto Império

A publicar · Junho de 2028

Um sapateiro escreveu umas trovas no século dezasseis. Falavam de um rei encoberto que havia de voltar e de um tempo em que as coisas se haviam de endireitar. Aquilo correu de boca em boca, foi lido em voz alta em cozinhas, ganhou eruditos que lhe construíram um edifício por baixo, e não parou mais. Quatrocentos anos depois, um povo inteiro continua à espera.

Este livro diz a coisa que nenhum dos que trataram desta matéria chegou a dizer, e ela é muito simples: aquilo não vem. Não vem porque não é do género das coisas que vêm. Um império de consciência não desembarca, não é inaugurado e não tem primeiro dia. É uma consequência — e uma consequência não chega: aparece quando a causa existir em quantidade suficiente.

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É a diferença entre esperar que chova e reparar que o rio subiu. Ninguém espera pelo rio. O rio é o que se vê quando choveu bastante nos sítios certos, e quem estiver à beira dele a olhar para o horizonte está a olhar para o sítio errado. O que ele espera passa-se em cima, na serra, gota a gota, durante semanas em que não se vê nada.

Descreve-se aqui a chuva a montante e não o rio. Três capítulos sobre o que tem de morrer — a espera, o poder sem sabedoria, e a ilusão de que se instala uma ordem nova por decreto. Três sobre a pessoa que daí resulta. Quatro sobre a sociedade que ela produz, escritos com uma disciplina rara: descrevem consequências e não propõem medidas.

Não há aqui uma data, um sinal nem uma previsão. Não há um programa. E não há nada a fundar, nem grupo a que aderir, nem geração escolhida.

O que fica é uma pergunta muito menos confortável do que quando: o que é que teria de ser real, dentro de muitas pessoas, para que aquilo acontecesse.

Há mais uma diferença, e essa nota-se na primeira página: são escritos na primeira pessoa. Deixei a voz impessoal do tratado, e deixei-a de propósito. Estudar uma coisa que está fora de nós faz-se muito bem com uma voz sem dono. Reconhecer qualquer coisa da própria vida não se faz com uma voz que nunca arriscou nada.

O primeiro chega no início do próximo ano.