Trajes de Palha, Corações de Ouro

Um coração de ouro só pode reluzir na simplicidade da palha; esse era o material que revestia o berço do menino. É também essa a imagem e a visão daquilo em que todos nós nos devemos transformar.


Na história do passado daquele a quem deram o nome de Jesus, está a codificação interna para os tempos de hoje. Não se trata, por isso mesmo, apenas de um relato histórico, mas da matriz programática para a actual dispensação planetária.

Na multidimensionalidade da expressão do Verbo, esse relato codifica em si mesmo tudo aquilo que estamos a viver individualmente e colectivamente neste período da história do planeta e não apenas os factos históricos da vida de Jesus e do contexto onde estes se desenrolaram.

Um desses códigos-programa está no Baptismo de Jesus.

Depois das várias tribulações passadas no deserto, das tentações, do desespero, da solidão, da ausência de propósito aparente, Jesus deixou as areias vazias e despidas de vida, onde jejuara após receber o baptismo, lançando-se na sua missão. Foi João Baptista que preparou o caminho, antecipando a vinda daquele que iria assumir a tarefa planetária de resgate de toda uma programação. Mas para que Jesus crescesse, João teria que diminuir, pois a função que lhe cabia era apenas de preparação e não de execução.

Uma das faces do programa que este acontecimento histórico pretende expressar é referente às duas levas de seres que actualmente cumprem esse mesmo programa. João Baptista simboliza os seres a que eu chamo de Primeira Leva, aqueles que despertaram primeiro para a programação Hierárquica e que tiveram a função de preparar o caminho para os seres da Segunda Leva, simbolizados por Jesus, que irão, finalmente, implementar na matéria o programa estabelecido para este planeta.

A activação da Primeira Leva ocorreu entre 88 e 92. Com essa activação todo um vector de trabalho pôde ser estabilizado neste plano dimensional e com ele a preparação daquilo que viria a acontecer apenas mais tarde. Com esse impulso, muitos livros foram escritos, muitas palestras realizadas, em alguns casos, onde a conexão vertical com a Hierarquia era mais acentuada, centros espirituais chegaram a ser criados. Pela palavra falada e escrita, toda uma nova informação foi veiculada instruindo e ajudando no despertar da Segunda Leva, contudo, nada de verdadeiramente importante foi realizado no mundo, da mesma forma que a missão de João Baptista nenhum efeito teve na sociedade de então. Apenas Jesus operou essa transformação.

Esse impulso inicial que levou à activação da Primeira Leva foi como uma explosão nuclear cujos efeitos se propagaram pelo tempo, mas que foi diminuindo lentamente pois não era a função desta a de executar o propósito, mas apenas de preparar o caminho.

Muitos desses seres, por não se encontrarem perfeitamente alinhados com a programação nem os seus corpos expressarem integralmente a nota superior, acabaram por desvirtuar esse trabalho inicial ao tentarem representar Jesus sem a morte do Baptista. Durante anos viveram no rasto dessa explosão de luz e não no seu núcleo central que os alimentou e orientou aquando do seu despertar. Hoje, os livros que escrevem são a repetição de tudo aquilo que já escreveram, as palestras que dão, a repetição de tudo aquilo que já falaram, os centros espirituais, muitos deles, a repetição das práticas já vividas num acomodamento que impedirá que o Novo possa despertar. Para todos eles, apenas a morte e o renascimento poderá relançá-los nos caminhos do Serviço. Essa é a grande prova dos Baptistas: saber diminuir, saber abdicar do poder que conquistaram para que o Novo possa despertar neles.

No entanto, nem todos se perderam nos caminhos sinuosos do ego. Muitos seres da Primeira Leva souberam vencer essa prova e diminuir perante a presença do Filho. Esse diminuir, contudo, não era deixar de actuar e de agir, embora para alguns estivesse destinado a reclusão total no deserto de onde Jesus saiu para cumprir a sua missão. Para a maioria a prova era simplesmente morrer para João e despertar para Jesus, deixando que Cristo actuasse através de si. Isso implicaria abdicar de tudo aquilo que construiram até então e renascer, literalmente, das cinzas do ego espiritualizado.

Ao contrário da Primeira Leva que desde 88 vem assumindo a sua tarefa, a Segunda Leva, pelo contrário, tem vindo ao longo destes anos num lento despertar que a levou até ao Deserto. Ali, perdidos nessa imensidão de areia existencial, julgados abandonados por Deus e sem um rumo definido, sonharam com realizações e construções, com tarefas e missões. Muitos não conseguiram contornar a inveja pelo sucesso dos da Primeira Leva e por tudo aquilo que estes fizeram, desejando, eles mesmos, numa cobiça tantas vezes insaciável, esse mesmo reconhecimento. No entanto, para seu tormento, nada de concreto realmente aconteceu nesse período, levando-os ao quase desespero. Olham para as suas vidas e vêem um imenso vazio, submersos que estão na dor e na desilusão a respeito dos caminhos do mundo e dos seus próprios caminhos. Ocultamente, contudo, esse vazio e essa dor foi trabalhando-os, preparando-os secretamente para o serviço.

A grande prova da Segunda Leva está na fé, na capacidade de persistir apesar de todos os obstáculos encontrados, acreditando que mesmo na aridez do deserto mais inóspito um oásis de abundância pode despontar. Todas essas dificuldades têm como base selos programáticos de conexão directa com a consciência do Cristo, pois apenas a Segunda Leva será crucificada no carma planetário que lhe compete resgatar. Uma vez mais se repete a matriz Jesus que, ao contrário da matriz Baptista, é a única com a tarefa de resgatar esse mesmo carma e implementar as sementes de uma Nova Terra.

Estes são os tempos em que os da Segunda Leva irão, finalmente, deixar o deserto para cumprirem a sua missão. Tempos em que o Cristo despertará no centro cardíaco de milhares de seres. São os tempos em que os da Primeira Leva terão que diminuir, como fez o Baptista, pois este não é mais um ciclo de preparação mas sim de execução.

Contudo, esta matriz programática tem, também, uma face interior e individual no seu simbolismo, pois em todos nós existe um Baptista e um Jesus e este último deverá reinar sobre o primeiro.

Diminuir o Baptista em nós é silenciar o lado mental, embora muitas vezes bem-intencionado, do nosso ser; aquele que instruiu pela palavra articulada e racional, que acumulou conhecimentos espirituais e que desenvolveu práticas e movimentos. Quando o Baptista diminuir, o coração passará a reinar.

Deixaremos, então, a palavra inflamada de João ante a população num qualquer deserto da Palestina, pregando, por vezes violentamente, contra as injustiças da civilização, para assumirmos e expressarmos a palavra doce e leve de Jesus no monte das boas aventuranças que penetra directamente no coração dos Homens e que nada julga ou critica. Não é mais a instrução o ponto central do processo, mas a radiação desse Amor que tudo penetra.

Ter a coragem de passar por essa morte - de reconhecer Jesus nas águas do Jordão e neste aquele que veio para reinar -, é despojarmo-nos do poder e da vaidade, do orgulho e da soberba e saber verdadeiramente diminuir perante a presença do Filho em nós e a ele conceder o baptismo, ou seja, abrir a porta e deixá-lo entrar.

João Baptista não é a imagem do ego comum, essa seria a de Herodes Antipas que lhe mandou cortar a cabeça, mas sim a imagem do ego espiritualizado, muito mais poderoso que este último. O baptismo de Jesus por João é a entrega simbólica de tudo aquilo que fomos até então. Na verdade, eles representam uma mesma pessoa.

Com esse baptismo, iniciamos a caminhada pelos trilhos da humildade, reconhecendo que o verdadeiro Serviço não tem como base tudo aquilo que acumulámos até então, ou que idealizámos, por mais espiritualizado que tenha sido, mas sim a entrega de tudo isso Àquele que veio para ser baptizado por nós. Há que ter a coragem de dar esse passo e depois diminuir para Ele poder actuar.

Se o Baptista não morrer em nós, nada poderemos realmente concretizar nesta vida que seja um reflexo de um propósito maior, pois estaremos a tentar representar um papel que não nos está destinado, como não estava destinado a João ser crucificado como Jesus o foi. Acabaremos sem cabeça, subjugados aos poderes da civilização.

É verdadeiramente um passo de humildade o que nos é pedido.

Trajes de palha, Corações de Ouro é o título deste texto e a chave para os tempos de hoje. Que não queiramos trajar de ouro, pois apenas nos restará um coração de palha que nada de verdadeiramente importante terá para doar ao mundo, por mais realizações e construções que possa empreender dentro da esfera humana.

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Pedro Elias
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